"Vivo na antitese de meus dias.
Tornei-me cega de tanto enxergar.
Cega ao mundo, contemplo o seu mundo...
Percebo a luz que brilha em sua face cintilante, adornada com um ar convidativo a morar no seu templo, onde habitam as suas mil maravilhas.
Escuro está o nosso futuro, embora ainda seja clara a minha visão de sua alma por mim intocada, tal como a virgem que se guarda ao seu amado.
Observo com detalhes todas as camadas, os níveis, os cômodos que guardam seus tesouros mais profundos e silenciosos.
Suas alegorias são as tentavivas acertivas que me levam a contemplar Deus através de um diálogo encharcado de infinito.
Atenho-me a permanecer na antecâmara de sua morada, antes de ouvir o seu doce chamado a me conduzir por um portal de felicidade a adentrar em seu cômodo mais íntimo e fugidio, a fim de que eu acomode as bagagens pesadas de minha existência, abarrotadas de passado.
Permita-me aposentar os calçados que me conduziram a lugares ermos.
Conceda-me descarregar os excessos que entopem as vias de acesso a completude de mim mesma.
Permita-me encostar meus sonhos no travesseiro do seu peito, para que se desperte toda a nossa realidade...
Renova os meus planos.
Reveste a minha verdade.
Deixa-me existir no seu consolo."
-Andréa Mello-



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