
“Num ímpeto, fora como um rodamoinho, tragando o sagrado que eu mantinha guardado em meu peito.
Meu templo, onde permanecia o maior dos sentimentos, fora subitamente invadido por palavras enlouquecidas pela frieza que saía de uma sentença cruel.
Me senti dilacerada a sangue frio, sem ao menos ser anestesiada por uma explicação coerente com o ato que me atou à dor tamanha.
Notei que passava-se de miragem toda a visão do futuro que eu acolhera em meu mais tenro pensamento e embalava todas as noites, cuidando para que crescesse em glória.
Percebi que um sonho agonizava prematuramente e morria ali diante de cada lágrima redentora que me tomava a face, ao mesmo tempo que limpava o sangrento coração.
Perdi o chão, como se o meu mundo tivesse afundado debaixo dos meus pés numa fúria cruel e sem sentido. Minhas palavras abandonaram meus pensamentos, e assim, confusa e confundida, resolvi usar o ponto final antes mesmo de começar uma frase.
Ouvi e calei. Encerrei ali para sempre os meus diálogos e enterrei no mesmo momento alguém em vida, por legítima defesa, pra que eu pudesse viver tranquila.
Sem mais rastros, sem mais restos, sepultei os mínimos detalhes: Nunca mais! Que dor e que alívio! ‘Nunca mais’ doía, ‘nunca mais’ libertava. ‘Nunca mais’ era como morrer e renascer. ‘Nunca mais’ era como perder uma batalha mas ainda assim continuar viva para ganhar outra.
Aprofundei-me no mais íntimo do meu ser com se eu tivesse sede de mim mesma. Meu silêncio ressoava ecos de paz e consolo.Encontrei Deus; ganhei asas quando perdi o chão.
Naquele momento pude enxergar de cima tamanha pequenez. Não perdi nada que pertencesse à minha alma , pensei. Perdi apenas uma ilusão.
Agradeci o passado, abençoei o presente, sorri para o futuro . Ele já está a caminho...
-Andréa Mello-